Resumo da Tese "Redes Sociais e Micropolíticas Socio-Educativas"

Redes Sociais e Micropolíticas Sócio-Educativas: Estudo de Caso sobre a Restinga-Porto Alegre
A Restinga é um bairro construído em meados dos anos 60 por uma política estatal de deslocamento de populações faveladas de diversas áreas consideradas precárias para um terreno isolado geograficamente das áreas centrais de Porto Alegre. O projeto arquitetônico, em termos ideais, era constituído de unidades vicinais que constituiriam um centro urbano plenamente desenvolvido e autônomo. Tais unidades vicinais representariam a ação pacificadora e organizadora do Estado, na crença de que a arquitetura poderia ser a solução para problemas de convivência urbana. Desde o início de sua construção, a ambivalência da ação do Estado determinou formas de segregação e isolamento. Algumas remoções foram feitas à força e outras consentidas, a triagem dos candidatos a moradia tinham um caráter oficial por renda, mas também por apadrinhamento ou pelo simples objetivo de desmontar as favelas nas regiões centrais de Porto Alegre. A Vila Restinga Nova, o projeto inicial da Restinga, desde os anos 60 teve cinco fases de desenvolvimento, e sua execução foi parcial, pelo fato de o parque industrial, planejado para dar empregos a sua população, ficou no projeto, além, da falta de planejamento do que fazer com a “outra Restinga” O loteamento provisório, onde as famílias seriam triadas, acabou sendo permanente, e chamado de Vila Restinga Velha, para onde até hoje as populações faveladas são removidas e onde há pouquíssimas e precárias políticas de urbanização.
O resultado do programa de remoção de favelas foi uma dupla segregação: a divisão da Restinga em duas metades, que guardam entre si um diagrama simbólico no qual toa a violência está “na Velha” e as pessoas de bem estão “na Nova”, e em relação ao resto da cidade, pelo seu isolamento geográfico. Suas estatísticas mostram população jovem e negra, de baixa renda e problemas como gravidez na adolescência, analfabetismo, e criminalidade violenta.
A observação etnográfica e os estudos de urbanização mostra a Restinga como um espaço heterogêneo, sendo a divisão binária presente mas não compartilhada por todos, e sensivelmente alterada pela evolução das fases urbanas e a construção de uma avenida que a integra ao resto da cidade, e contrariamente ao senso comum, ajuda na circulação entre “as duas Restingas”.
Múltiplos aparelhos estatais foram construídos na Restinga, especialmente escolas municipais e estaduais, em torno de 21, talvez os únicos órgãos que atinjam de maneira significativa sua população de aproximadamente 100 mil habitantes, atendidos por quatro unidades básicas de saúde, um conselho tutelar, um centro comunitário, uma delegacia de polícia, um batalhão da BM e uma pequena unidade do corpo de bombeiros.
As grandes dificuldades enfrentadas pela população em termos de urbanização e habitação são sentidas por sua parcela de jovens e adolescentes que freqüentam as escolas, e a Restinga também é repleta de políticas assistenciais e planos macropolíticos para resolver as situações de vulnerabilidade e exclusão social, além da violência doméstica e do tráfico de drogas. Da mesma forma, é marcante o papel da mobilização de seus moradores e trabalhadores na reivindicação de soluções para os problemas e também na construção de entidades e Redes sociais que atuam fortemente na mediação entre o Estado e a população. O percurso deste pesquisador no bairro, presente desde 1996 é justamente acompanhando as Redes sociais onde ocorrem alianças, conflitos, territórios híbridos entre atores do Estado e movimentos sociais do bairro na execução planejamento e gestão de políticas da infância, adolescência e juventude. As ações do poder público e seus aparelhos técnicos, políticos e científicos são interpretadas como precárias que não levam em conta o protagonismo da comunidade, configuração simbólica que parece acompanhar a Restinga desde a sua construção.
Em termos teóricos, é possível colocar este conflito dentro daquilo que Zigmunt Bauman chama de “Modernidade e Ambivalência”, e que outros sociólogos e criminólogos contemporâneos, como Giddens, ou David Garland como modernidade tardia. O projeto moderno do Estado de tornar a Restinga como uma solução para problemas e miséria, violência e exclusão social acabou por gerar outras tantas e múltiplas formas de exclusão e segregação. Usando a metáfora de Bauman, o “Estado jardineiro” errou a mão nos agrotóxicos e não fez as podas na hora certa. È nesta perspectiva que atuam as Redes sociais, como ervas daninhas em um jardim, aquilo que Michael Hardt e Toni Negri denominam biopolítica, a política das redes feitas de moradores e trabalhadores, dentro e fora da burocracia estatal, a Multidão. Esta pesquisa
Portanto, as políticas públicas são híbridos gestados dos conflitos entre a comunidade, o estado e as lideranças territoriais. Estas máquinas sociais produtoras de ações e discussões no bairro serão denominadas aqui micropolíticas, termos utilizado por Deleuze e Guattari na obra Mil Platôs. Estas micropolíticas são pontos de convergência de redes sociais que ocupam os espaços dentro das diversas linhas de força atuantes no bairro, especialmente as instituições escolares. Será aqui descrito o trabalho do FERES (Fórum de Educação da Restinga e Extremo Sul), uma rede de trabalhadores e trabalhadoras biopolíticos, que se autodenominam educadores populares e professores e professoras do Estado, que desenvolvem estratégias de luta e executam políticas sócio- educativas voltadas a jovens, adolescentes, crianças, professores de escolas e comunidade em geral.
METODOLOGIA
Organização e análise de dados obtidos de maneira difusa através do QSR (Qualitative Software of Research) NVIVO. Este software possibilita a alimentação de dados obtidos qualitativamente de maneira desorganizada temporal e espacialmente e sua categorização e recategorização contínuas. Os dados desta pesquisa aparecem de maneira difusa porque pertencem a diferentes incursões no bairro Restinga:
-Projetos de extensão (Vivenciando a Cultura na Restinga, Convivências).
-Participação e colaboração em atividades do FERES
- Entrevistas, fotografias, filmagens, visitas, conversas, debates,
-Coleta de dados através da captação e organização de mensagens da lista de discussões por correio eletrônico feres@yahoogrupos.com.br
CONCLUSÃO
O estudo consiste em três categorias de análise:
a)A heterogeneidade e a conectividade do FERES, integrando entidades assistenciais, educacionais e administrativas do bairro, estudantes universitários envolvidos com ensino, pesquisa e extensão e colaboradores autônomos. A construção deste coletivo surgiu da iniciativa de professores e professoras de escolas da restinga para abrir as Escolas para atividades culturais alternativas ao currículo e promover o debate sobre educação.
b)As estratégias de organização, que oscilam, entre a flexibilidade e a desorganização, entre a autonomia e a dependência (regulação vs emancipação). É importante ressaltar o fator de segregação urbana como gerador de processos de autonomia. O FERES é uma entidade reconhecida, no bairro e na cidade, pelo seu trabalho ,mas ainda não possui registro oficial, seus recursos financeiros e sua estrutura física são precários e itinerantes, mas sua criatividade , combatividade e a capacidade de agregar capital humano o torna capaz de gerenciar uma imensa agenda de oficinas, mobilizações, programações culturais e políticas da juventude no bairro. O FERES tem inicio como um fórum de um único dia no qual ocorreriam diversas oficinas e debates. Hoje o FERES é uma Rede que gerencia, ao longo do ano, mais de 50 eventos, debates, oficinas, capacitações, além de manter uma lista de correio eletrônico para deliberações e intercâmbios.
A rede -FERES é estruturada por um núcleo de membros mais antigos, que residem ou trabalham no bairro uma rede de colaboradores vinculados a projetos sociais de universidades ou do terceiro setor, e a rede heterogênea de moradores e trabalhadores do bairro, que usufruem de suas ações. O FERES, atualmente é organizado por núcleos temáticos, cujas coordenações compõem uma coordenação maior, responsável pela organização do cronograma de atividades. Durante o ano são realizados os Seminários, abertos a todos os colaboradores e participantes.
c)A qualidade e a quantidade de serviços e políticas executadas no bairro: formação de professores e alunos de escolas e da comunidade em geral em temas pertinentes, divididos em eixos: Etnias, Comunicação, Direitos Humanos, Produção Cultural e Economia Solidária.
Para saber mais sobre Porto Alegre e a Restinga em termos de dados estatísticos, índices, demografias acesse o Observatório da Cidade de Porto Alegre:
www.observapoa.com.br
