Redes e Micropolíticas I
*Os conceitos e idéias a seguir são de minha dissertação de mestrado: "Autopoiese e Sociedade: A Rede Integrada de Serviços da Restinga na teoria do sistemas vivos", disponível na biblioteca de teses e dissertações da UFRGS www.ufrgs.br
Também estarão presentes na minha tese, que está sendo escrita "Redes Sociais e Micropolíticas Socio-Educativas: Estudo de Caso sobre o Bairro Restinga".
Humberto Maturana (1997 e 1999), em sua “Ontologia da Realidade”, traz a idéia de uma realidade constituída de um multiverso, como contrapartida a de Universo, ou seja, não há um universo único a ser descoberto pelo observador "homem", mas sim um multiverso construído pelo encontro dos observadores, que se dá de maneira caótica, ou seja, de diversas maneiras de organização. Uma das grandes contribuições dos estudos de Maturana e Varela é o reforço às idéias de Jean Piaget sobre a inteligência como fenômeno biológico adaptativo, chamando atenção para a importância do histórico de interações que os organismos realizam, modificando-se e se deslocando no espaço e no tempo, se relacionando com outros organismos, confrontando regras de funcionamento e estabelecendo novas regras no processo vital. Sob esta perspectiva podemos considerar a atividade humana, em especial a ciência, como um processo cognitivo envolvendo máquinas biológicas, sob o pensamento ecológico, visto que não há pensamento ou mente sem a coletividade[1]. Pierre Lévy interessou-se por esta questão ao trabalhar com idéias de “inteligência coletiva”[2] além da noção de “ecologia cognitiva” de Gregory Bateson (1991). As perguntas “como eu conheço”, ou “o que eu quero conhecer” adquirem a consciência de que “eu observo” a partir do que “nós conhecemos”. O processo de conhecer seria exprimível, nesta perspectiva, “conhecer a partir de uma rede”. Aqui se encontra pesquisador como mais uma interface comunicativa em uma rede, a partir de uma distinção que autodenomina-se Rede, um espaço delimitado de interseções entre pessoas atravessadas por instituições/organizações implicadas em políticas públicas, legislações movimentos sociais que dão conta da atenção a criança e ao adolescente outras políticas socioplítico educativas no bairro Restinga.
É a partir de um conceito da biologia que Guattari, partilhando as idéias de Deleuze, Foucault, Gregory Bateson, Varela, Morin, Maturana e Ilya Prigogine, parte para uma nova perspectiva de observação da realidade, complexa, e sistêmica. Em “As Três Ecologias”[3], Guattari mostra-nos a “Esquizoanálise” sendo convertida por seus agenciamentos dinâmicos e morfológicos: a Ecosofia, como um sistema que pensa a realidade por três registros ou ecologias:
A ecologia do meio ambiente, das relações sociais e da subjetividade humana (Guattari, 1999, p.08)
A máquina-flor e a máquina-vespa descritas em “O Rizoma”[4] formam sistemas que se acoplam a outros sistemas, produzindo aberturas e clausuras, acoplamentos agenciamentos maquínicos entre toda sorte de máquinas-fonte e máquinas-órgão[5]. Adentramos aqui o terreno de uma visão do Real por suas tramas, suas conexões e suas diferentes linhas de fuga. Na Ecosofia, ou Ecologia Cognitiva[6], ocorrem agenciamentos de máquinas, mais especificamente, corpos sem órgãos e máquinas desejantes, importantes conceitos trazidos por Deleuze e Guattari, resumidos por Gregório Baremblitt (1998) da seguinte maneira: Para não complicar as coisas, direi a respeito que o Corpo sem Órgãos é uma espécie de rede sobre a qual se dispõem ao acaso as intensidades (Baremblitt, 1998 p.53)
O Corpo sem Órgãos é constituído de pura intensidade, de movimento, de energia, maquinismos; as máquinas desejantes são engrenagens, dão início a uma superfície de produção de constituição de corpos segmentários. As máquinas desejantes podem segmentar-se em máquinas fonte e máquinas órgão:
uma máquina fonte gera um fluxo energético, e uma máquina órgão o corta e o modula. Elas se conectam assim em todas as direções, e esse processo incoercível é o que gera a produção de tudo o que existe (1998 p.53)
Quando um internauta acessa a Internet, tem diante de si a tela do computador exibindo o lay out do programa navegador. Ao acessar um endereço, o programa navegador dá acesso a uma página que pode conter diversos links, cada um representando um site de um lugar diferente. Se a sessão de links tiver por tema entidades que lidam com o Estatuto da Criança e do Adolescente, nesta página está hospedada uma grande rede de saberes e práticas que levam a outras redes, que são capazes de atingir outras interfaces. Uma página web, uma interface gráfica, pode trazer em si a potencialidade de uma imensa rede. A anulação do tempo e do espaço pela rede também modifica as noções de volume, extensão “diagramação", uma distribuição não mais concreta , mas conceitual e significativa. Uma pessoa pode conter em si a Rede, pois está em “rede”. Este pesquisador, quando escreve sobre a rede, escreve um texto só mas composto por muitos textos, e inclui a rede inteira, sendo múltiplo e parte de uma multiplicidade, sendo molar e molecular.
Novamente chego a uma questão: ainda que os governos lancem novas políticas, o grupo pode ser impulsionado, pelo papel de uma ou duas pessoas que o sustentam. Não necessariamente, mas acredito que as grandes mudanças institucionais são sempre agenciadas por indivíduos, a lógica molar-molecular expressa por Deleuze & Guattari em Micropolítica e Segmentaridedade (Mil Platôs, vol 3, 1996) e Pierre Lévy emA Inteligência Coletiva (1999). O que chamamos de molar, refere-se a mol, e um mol é, quimicamente falando, uma referência quantitativa, representado pelo número de Avogadro, que é 60,2 seguido de 21 zeros. Como o número de átomos de sódio ou moléculas de NaCl (cloreto de sódio)em uma pitada de sal é gigantesco, ou seja, repete uma mesma coisa em larga escala, criou-se um artificio matemático para facilitar os cálculos, o mol. O mol é um codificador que facilita cálculos, para evitar um excesso de números. Em vez de multiplicar dois números já imensos, pode-se expressar “dois móis”, ou 2M. No entanto, estabelecendo o mecanismo entre o as grandezas molares e moleculares, notamos que um mol, em uma reação química, necessita ser um mol “de alguma coisa”, que necessariamente será diferente do mol de “alguma outra coisa”. Certamente, para um químico ou mesmo para qualquer churrasqueiro chega a ser dramática a diferença entre um mol de sal grosso e de açúcar, ainda que tenham a mesma cor. As moléculas são expressas em termos de diferenças entre as unidades químicas. Na verdade, quando contamos qualquer coisa, estabelecemos um relação molecular-molar, associando a coisa contada com o número em que se apresenta: um coco, dois cocos, são diferentes em número e idênticos em serem cocos. É interessante observar em relação à idéia de rede: as redes, são heterogêneas em relação aos tipos de rede e também em relação diferenças entre seus componentes, pois estes podem acoplá-las a outras redes, por características comuns. Gregory Bateson parece ter, em sua pesquisa, ido à procura do elemento que., ao mesmo tempo, é diferencial mas repete-se em ampla escala: a estrutura que liga. Somos uma rede de múltiplas redes, que faz com que nos tornemos iguais em alguns sentidos e diferentes em outros.
[1] “Por sermos humanos, somos inseparáveis da trama de acoplamentos estruturais tecida por nossa permanente trofolaxe lingüística” (Maturana e Varela, 2000, p257)
[2] “A inteligência coletiva só tem início com a cultura e cresce com ela. Pensamos, é claro, com idéias, línguas, tecnologias cognitivas recebidas de uma comunidade”(Lévy ,1999, p31)
[3]GUATTARI, Félix, As Três Ecologias. Campinas: Editora Papirus 1999.
[4]DELEUZE, Gilles. & GUATTARI, Félix. Mil Platôs: Capitalismo e Esquizofrenia vol 1. Rio de Janeiro: Editora 34, 1995
[5]Explicadas mais detalhadamente a seguir.
[6]Esta equivalência de conceitos é de minha responsabilidade, a partir dos três autores que os abordam: Gregory Bateson, Félix Guattari e Piérre Lévy (n.do a.)
Também estarão presentes na minha tese, que está sendo escrita "Redes Sociais e Micropolíticas Socio-Educativas: Estudo de Caso sobre o Bairro Restinga".
Humberto Maturana (1997 e 1999), em sua “Ontologia da Realidade”, traz a idéia de uma realidade constituída de um multiverso, como contrapartida a de Universo, ou seja, não há um universo único a ser descoberto pelo observador "homem", mas sim um multiverso construído pelo encontro dos observadores, que se dá de maneira caótica, ou seja, de diversas maneiras de organização. Uma das grandes contribuições dos estudos de Maturana e Varela é o reforço às idéias de Jean Piaget sobre a inteligência como fenômeno biológico adaptativo, chamando atenção para a importância do histórico de interações que os organismos realizam, modificando-se e se deslocando no espaço e no tempo, se relacionando com outros organismos, confrontando regras de funcionamento e estabelecendo novas regras no processo vital. Sob esta perspectiva podemos considerar a atividade humana, em especial a ciência, como um processo cognitivo envolvendo máquinas biológicas, sob o pensamento ecológico, visto que não há pensamento ou mente sem a coletividade[1]. Pierre Lévy interessou-se por esta questão ao trabalhar com idéias de “inteligência coletiva”[2] além da noção de “ecologia cognitiva” de Gregory Bateson (1991). As perguntas “como eu conheço”, ou “o que eu quero conhecer” adquirem a consciência de que “eu observo” a partir do que “nós conhecemos”. O processo de conhecer seria exprimível, nesta perspectiva, “conhecer a partir de uma rede”. Aqui se encontra pesquisador como mais uma interface comunicativa em uma rede, a partir de uma distinção que autodenomina-se Rede, um espaço delimitado de interseções entre pessoas atravessadas por instituições/organizações implicadas em políticas públicas, legislações movimentos sociais que dão conta da atenção a criança e ao adolescente outras políticas socioplítico educativas no bairro Restinga.
É a partir de um conceito da biologia que Guattari, partilhando as idéias de Deleuze, Foucault, Gregory Bateson, Varela, Morin, Maturana e Ilya Prigogine, parte para uma nova perspectiva de observação da realidade, complexa, e sistêmica. Em “As Três Ecologias”[3], Guattari mostra-nos a “Esquizoanálise” sendo convertida por seus agenciamentos dinâmicos e morfológicos: a Ecosofia, como um sistema que pensa a realidade por três registros ou ecologias:
A ecologia do meio ambiente, das relações sociais e da subjetividade humana (Guattari, 1999, p.08)
A máquina-flor e a máquina-vespa descritas em “O Rizoma”[4] formam sistemas que se acoplam a outros sistemas, produzindo aberturas e clausuras, acoplamentos agenciamentos maquínicos entre toda sorte de máquinas-fonte e máquinas-órgão[5]. Adentramos aqui o terreno de uma visão do Real por suas tramas, suas conexões e suas diferentes linhas de fuga. Na Ecosofia, ou Ecologia Cognitiva[6], ocorrem agenciamentos de máquinas, mais especificamente, corpos sem órgãos e máquinas desejantes, importantes conceitos trazidos por Deleuze e Guattari, resumidos por Gregório Baremblitt (1998) da seguinte maneira: Para não complicar as coisas, direi a respeito que o Corpo sem Órgãos é uma espécie de rede sobre a qual se dispõem ao acaso as intensidades (Baremblitt, 1998 p.53)
O Corpo sem Órgãos é constituído de pura intensidade, de movimento, de energia, maquinismos; as máquinas desejantes são engrenagens, dão início a uma superfície de produção de constituição de corpos segmentários. As máquinas desejantes podem segmentar-se em máquinas fonte e máquinas órgão:
uma máquina fonte gera um fluxo energético, e uma máquina órgão o corta e o modula. Elas se conectam assim em todas as direções, e esse processo incoercível é o que gera a produção de tudo o que existe (1998 p.53)
Quando um internauta acessa a Internet, tem diante de si a tela do computador exibindo o lay out do programa navegador. Ao acessar um endereço, o programa navegador dá acesso a uma página que pode conter diversos links, cada um representando um site de um lugar diferente. Se a sessão de links tiver por tema entidades que lidam com o Estatuto da Criança e do Adolescente, nesta página está hospedada uma grande rede de saberes e práticas que levam a outras redes, que são capazes de atingir outras interfaces. Uma página web, uma interface gráfica, pode trazer em si a potencialidade de uma imensa rede. A anulação do tempo e do espaço pela rede também modifica as noções de volume, extensão “diagramação", uma distribuição não mais concreta , mas conceitual e significativa. Uma pessoa pode conter em si a Rede, pois está em “rede”. Este pesquisador, quando escreve sobre a rede, escreve um texto só mas composto por muitos textos, e inclui a rede inteira, sendo múltiplo e parte de uma multiplicidade, sendo molar e molecular.
Novamente chego a uma questão: ainda que os governos lancem novas políticas, o grupo pode ser impulsionado, pelo papel de uma ou duas pessoas que o sustentam. Não necessariamente, mas acredito que as grandes mudanças institucionais são sempre agenciadas por indivíduos, a lógica molar-molecular expressa por Deleuze & Guattari em Micropolítica e Segmentaridedade (Mil Platôs, vol 3, 1996) e Pierre Lévy emA Inteligência Coletiva (1999). O que chamamos de molar, refere-se a mol, e um mol é, quimicamente falando, uma referência quantitativa, representado pelo número de Avogadro, que é 60,2 seguido de 21 zeros. Como o número de átomos de sódio ou moléculas de NaCl (cloreto de sódio)em uma pitada de sal é gigantesco, ou seja, repete uma mesma coisa em larga escala, criou-se um artificio matemático para facilitar os cálculos, o mol. O mol é um codificador que facilita cálculos, para evitar um excesso de números. Em vez de multiplicar dois números já imensos, pode-se expressar “dois móis”, ou 2M. No entanto, estabelecendo o mecanismo entre o as grandezas molares e moleculares, notamos que um mol, em uma reação química, necessita ser um mol “de alguma coisa”, que necessariamente será diferente do mol de “alguma outra coisa”. Certamente, para um químico ou mesmo para qualquer churrasqueiro chega a ser dramática a diferença entre um mol de sal grosso e de açúcar, ainda que tenham a mesma cor. As moléculas são expressas em termos de diferenças entre as unidades químicas. Na verdade, quando contamos qualquer coisa, estabelecemos um relação molecular-molar, associando a coisa contada com o número em que se apresenta: um coco, dois cocos, são diferentes em número e idênticos em serem cocos. É interessante observar em relação à idéia de rede: as redes, são heterogêneas em relação aos tipos de rede e também em relação diferenças entre seus componentes, pois estes podem acoplá-las a outras redes, por características comuns. Gregory Bateson parece ter, em sua pesquisa, ido à procura do elemento que., ao mesmo tempo, é diferencial mas repete-se em ampla escala: a estrutura que liga. Somos uma rede de múltiplas redes, que faz com que nos tornemos iguais em alguns sentidos e diferentes em outros.
[1] “Por sermos humanos, somos inseparáveis da trama de acoplamentos estruturais tecida por nossa permanente trofolaxe lingüística” (Maturana e Varela, 2000, p257)
[2] “A inteligência coletiva só tem início com a cultura e cresce com ela. Pensamos, é claro, com idéias, línguas, tecnologias cognitivas recebidas de uma comunidade”(Lévy ,1999, p31)
[3]GUATTARI, Félix, As Três Ecologias. Campinas: Editora Papirus 1999.
[4]DELEUZE, Gilles. & GUATTARI, Félix. Mil Platôs: Capitalismo e Esquizofrenia vol 1. Rio de Janeiro: Editora 34, 1995
[5]Explicadas mais detalhadamente a seguir.
[6]Esta equivalência de conceitos é de minha responsabilidade, a partir dos três autores que os abordam: Gregory Bateson, Félix Guattari e Piérre Lévy (n.do a.)

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